terça-feira, 15 de setembro de 2009

Últimas palavras escritas no orfanato

Esta página do Blogue foi escrita no meu último dia na Casa Emanuel, mas não consegui colocar pois desconectava...portanto insiro agora, assim como tenho outras para introduzir!!

Está a ser complicadíssimo escrever pois a rede está sempre a saltar, além de não conseguir escrever uma linha seguida sem chorar (é muito bom conseguir chorar, como tenho chorado!)...Vou insistir pois tenho tanto para vos contar e tão pouco tempo para desperdiçar aqui a escrever, apenas me resta o dia de hoje menos de 24 horas para disfrutar destas crianças, deste ambiente saudável e desta alegria que me invade de uma forma arrebatadora... Parece que só cá estou à uma semana. Recordo imensas vezes o meu amigo, Nuno Silvestre, que me dizia na véspera da minha partida, que no final iria sentir saudades de Portugal, de tudo o que fizesse lembrar a minha casa, no entanto tenho que ser franca estou muito bem e ainda não senti saudades de nada, é como digo, passou muito depressa, nem tive tempo para respirar, não me apetece voltar já!


Gostava de poder ficar aqui até me apetecer e não ter que regressar por questões profissionais, mas a vida é mesmo assim e se à coisa que gosto é assumir as minhas responsabilidades!

Sinto-me feliz, pois neste tempo que aqui estive, entendi muita coisa que não encontrava explicação, ou que talvez não queria perceber e aceitar. Se fizer sentido, quando estiver em Portugal calmamente vou escrever o que passei aqui.

Na Casa Emanuel (orfanato) como já tiveram oportunidade de ler, alguns casos, há muitas histórias tristes que "apertam" o coração de uma forma agressiva, deixando qualquer ser humano sensibilizado e solidário a apoiar estes meninos. Contudo é muito importante que fique a ideia clara que todos juntos formam uma família, sendo a Isabel e a Eugénia as responsáveis da casa, cada uma com a sua personalidade e tão diferentes!! Estão também duas famílias que estão em Missão, por sentirem um chamamento de Deus, optando por dar a sua vida por estes meninos. Todos eles deixaram para trás uma vida pessoal estável, cómoda, de bem-estar nas suas casas, profissões, amizades, família entre outras coisas. Com objectivo de ajudar a educar, a criar, a ensinar todos estes meninos que estariam na rua perdidos, abandonados ou muitos já sem vida! Como é natural, existem dificuldades e nem tudo é perfeito. Cada um tem os seus problemas, no entanto senti ao longo deste tempo que apoiam-se, que se ajudam mutuamente conseguindo ultrapassar as crises que se levantam conseguindo ter uma casa organizada, alimento, higiene, escola, entre outras bons costumes que lá fora não se vê (ex: lavar dentes várias vezes ao dia, tomar mais do que um banho diário!!).

Nestes últimos dias "saltei" os muros do orfanato e encontrei a realidade do país de uma forma nua e crua.

Há uma grande aproximação daquilo que nos é transmitido todos os dias através dos meios de comunicação, das histórias e testemunhos, no entanto, falta a parte que não nos mostram: o cheiro no ar, o choro das crianças mal tratadas, a miséria nas ruas e nas casas que não existem, o desânimo e falta de confiança na vida o próprio Amor pela vida... O verdadeiro sentido da vida, creio que nem lhes interessa e. de facto a nós também não..Vivemos muito preocupados com os bens materiais e pouco mais, cada um à sua dimensão!! Não é nada fácil presenciar toda esta forma de estar e viver, a realidade é muito fria e nada se consegue fazer em “dois dias”, apenas assistir. É uma sensação de incapacidade de pequenez tão grande que me reduzo à insignificância humana que sou! E a dificuldade de lidar é porque custa aceitar esta pobreza, a simplicidade de tudo o que os rodeia, o facto de não saber como agir, o que dizer, a quem dizer... É de facto de louvar a quem dá a sua vida por este povo, mais uma vez tive consciência que sou egoísta, vivo instalada, confortada e mimada no meu dia-a-dia, não valorizando tudo o que tenho, a riqueza que me envolve, sim, riqueza material, sentimental e mesmo psicológica, se é que isto existe.


Passar por aqui, tem sido uma vivência muito mais rica do que imaginava, na verdade pensava imenso em tudo isto e sabia que existia este “mundo”, mas viver com eles dá para perceber que o valor do ser humano ultrapassa qualquer barreira, que cada pessoa pode contribuir para um sorriso, para uma ajuda...E isto não é apenas com crianças.

Tive oportunidade de relacionar-me com cerca de 30 senhoras aqui no orfanato, pois cada grupo de meninos tem uma responsável por eles.


Estas senhoras num primeiro contacto mantiveram distância e olhavam-me de uma forma bastante desconfiada, nada fiz para me aproximar apenas fui fazendo o que havia para fazer (dar papa, mudar fralda, brincar, dar banho, cozinhar, vestir os meninos, passear, reunir, etc..). Sempre falei com elas, mesmo sabendo que a língua poderia representar uma barreira, no entanto muitas delas percebem bem o português e as senegalesas falam todas francês, os primeiros dias deixei andar e não acusei que sabia falar francês mas num primeiro episódio que sucedeu, uma criança caiu de cadeira e presenciei tive que falar directamente com uma delas e foi em francês, ficaram todas a olhar para mim de uma forma espantada, fui percebendo que estava a ser bastante observada por cada uma delas e muitas vezes senti que falavam nas minhas costas, mas nada me incomodou, sabia que ia mudar pois estou aqui pelas mesmas razões que elas, amar e cuidar destes meninos. Neste momento, já todas chamam pelo meu nome e dizem que vão sentir a minha falta pois já estavam habituadas!! Creio que acima de tudo é fundamental as pessoas daqui sentirem que não estou aqui para cobrar nem tirar nada mas sim para poder ajudr a viver melhor estas crianças e a elas no que poder.

Tenho falado com todas elas e transmitido que elas são muito importantes aqui, pois são “Guineenses” e conhecem cada menino melhor que ninguém! E um dia mais tarde cada criança vai recordá-las com carinho, satisfação e agradecimento. Assim, é muito importanto todo o trabalho que desenvolvem e acredito que mesmo não sendo o trabalho mais bem remunerado um dia receberão tudo aquilo a que têm direito! Acredito que Deus dá 100 por 1. Inclusivamente fazem questão de me convidar para ir a casa delas, fui a duas! Ofereceram-me a ajuda e apoio durante os meus dias aqui, como lavar roupa, arrumar quarto, pentear, ofereceram-me coisas como cajú, amendoím, fizeram-me papas, riram e fizeram-me rir com gosto e sem medo... Sinto mesmo que deixo aqui boas amigas e que acima de tudo confiam em mim!!


é bom sentir que se pode ter amizades verdadeiras! Não queria ir já embora, não gostava de as deixar já, depois do tempo que levámos a conquistar umas às outras e escrevo isto com as lágrimas nos olhos porque estas mulheres são fantásticas e vou ter saudades de todas elas...

Outra situação que quero contar e que já deu para estes meninos gozarem comigo... Um dos meus maiores receios e medos quando vim, era maginar que podia cruzar-me com uma cobra!!! Socorro que pânico, nõa passa pela a cabeça de ninguém como ficava ao escurecer, sair à rua sem lanterna, só pode ser piada! Passei uma noite em branco e com uma respiração acelarada com esse pânico, foi terrível. Arrepiava-me e de facto ainda tenho pavor, acho que é mesmo fobia. Penso que psicológicamente já estou preparada para a hipótese de me cruzar, apesar de saber que devo gritar que nem uma “louca” até a cobra ficar surda!

E por hoje não vou contar mais nada pois as horas voam e preciso de “roubar” mais destes meninos...

Estou a sentir que estou a deixar algo muito importante para fazer, no entanto, estou certa que se assim for... eu volto... preparada para responder seja ao que for. Sozinha nada consigo e por isso preciso dos meus amigos TODOS!...Escrevo isto, com a maior das simplicidades certa e segura que não tenho ideia do que está à minha espera.